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criado por Murilo Gitel
16:51:22
Por Murilo Gitel*
-Alô, teste, gravando! Nunca vou esquecer uma mulher afegã, radicada no Canadá, que procurou os meus serviços, aqui neste casebre, certo tempo atrás. Inclusive, gravo este relato graças a ela, que atendeu ao meu pedido e me deu este gravador. Em uma época em que as pessoas deste Afeganistão dominado pelo ódio e o medo dariam a vida para se mudarem para qualquer outro lugar, chamou-me a atenção o fato da bela Nafas me pedir ajuda para chegar a Kandahar, justamente à sede da milícia Talibã.
Em companhia de um guia mirim aqui do deserto, Nafas aparentava estar infectada com alguma doença que lhe afetara os olhos, malária talvez, além do cansaço natural de uma mulher que há muito caminhava, com o objetivo de chegar a cidade onde morava a irmã dela, que, antes disso escreveu uma carta pela qual expressava a decisão de cometer suicídio logo após o último eclipse. Tomada de desespero e amor, Nafas conseguiu a proeza de entrar neste país em constante guerra civil, com o nobre intuito de impedir que a irmã cometesse tal ato, mesmo sem considerar os riscos que iria correr para chegar a Kandahar.
Tudo isso porque quando os talibãs assumiram o poder em Cabul, há 12 anos, os afegãos viram submergir as promessas de um “reinado de pureza” e boa parte deles foram dizimados e/ou mutilados nesta guerra santa incompreensível, edificada em nome de Alá, mas produzida pelos interesses dos homens, fanáticos religiosos. Posso imaginar a surpresa negativa de Nafas ao retornar a este país outrora embelezado pelas montanhas e árvores, que eram o centro das brincadeiras das crianças, mas que hoje escondem o poder totalitário do fundamentalismo em nome do Corão, mas, que se opõe ao livro sagrado deixado pelo profeta Maomé.
Recordo que a adverti a respeito dos perigos que representavam a companhia do guia mirim que a trouxe até minha casa. Ela ofereceu ao menino uma nota de cinqüenta dólares para acompanhá-la até Kandahar. Quando chegou nesta sala, exigiu mais alguma quantia e Nafas parecia decidida a seguir com ele. Expliquei-lhe que era muito perigoso. Ele poderia entregá-la aos homens do regime de uma hora para outra e ela seria fatalmente executada. A mulher no Afeganistão não tem mais direitos, apenas deveres. Elas não podem trabalhar fora de casa, tampouco freqüentar as escolas. São obrigadas a se cobrirem completamente com a burca até mesmo dentro de casa e são consideradas infiéis caso descumpram estas leis estranhas.
Por essas razões, penso eu, a irmã de Nafas manifestou o desejo pelo suicídio. Neste caso, dar cabo da própria vida parece ter o efeito da morfina, que ameniza a dor e o sofrimento humano. Mas aquela mulher queria de alguma forma, trazer esperança a irmã. No Afeganistão, o sentimento de esperança está em falta. Mesmo assim, portando este gravador, Nafas, que se apresentou como estudante de jornalismo percorreu este deserto e viu com os próprios olhos no quê a sua terra natal foi transformada. Deparou-se com a fome das crianças, com a ignorância miserável de homens e mulheres, e com os sonhos dos mutilados por meio das minas.
O cenário que Nafas encontrou durante o caminho de Kandahar, muitas vezes remeteu as Mil e Umas Noites, mas com os detalhes implacáveis da presença da obscuridade e do medo, por todas as partes. Em minha carroça, ofereci ajuda para que pudesse levá-la à localidade mais próxima do seu destino, na inspeção de agentes da milícia talibã que permite ou não que as mulheres atravessem à fronteira para Kandahar. Pedi o gravador a ela porque conhecia a severidade das revistas, quando qualquer objeto suspeito encontrado vira motivo para o assassinato de seu portador. Alguns homens tentam chegar a Kandahar disfarçados de mulher, mas a inspeção costuma ser atenta e os “guerreiros de Alá” não perdoam tamanha ousadia. Foi o que aconteceu com um desconhecido que encontramos em um desses caminhos que percorremos com a charrete, numa estrada empoeirada. O disfarce de mulher que ele tentou aplicar diante da inspeção foi descoberto e ele descansa agora em paz, em um mundo mais justo do que este mundo.
Mas Nafas conseguiu passar ilesa por mais este desafio e chegou a Kandahar. Não tive mais notícias dela e nem poderia ter, até porque este país é contrário aos mecanismos de comunicação e a toda e qualquer liberdade de expressão. Por aqui, a política gira basicamente em torno da ocultação, em vez da revelação. Confesso que poucas vezes vi tanta coragem em uma única mulher. Certamente ela atingiu seu objetivo, reencontrou a irmã que ficou para trás desde a fuga dos emigrantes que deixaram o Afeganistão, desde que o Talibã assumiu o poder, e a convenceu de que pode haver esperança, apesar de tudo, e que ela não está mais sozinha. Não será uma tarefa fácil para Nafas, que deve saber bem disso. O problema é que as mulheres desta nação já morreram muitas vezes em vida. E para muitas delas, a liberdade através das asas da morte é mais digna e menos dolorosa do que viver atrás das grades.
O meu nome neste país é Amin Guraieb, faço um trabalho semelhante ao dos médicos, sou afro-americano e, por incrível que isso possa parecer nos dias de hoje, migrei para o Afeganistão com o objetivo de encontrar Deus.
*Adaptação livre do filme iraniano A Caminho de Kandahar, do diretor Mohsen Makhmalbaf - desvio de foco narrativo - trabalho acadêmico para a disciplina Jornalismo e Literatura.

criado por Murilo Gitel
10:40:27
O filósofo-poeta-pintor libanês Gibran Khalil Gibran, autor de "O Profeta".
Hoje, como neste mesmo dia a cada ano, o homem salta de seu sono profundo e se põe de pé diante dos fantasmas das eras, olhando com olhos lacrimosos para o monte do Calvário para testemunhar Jesus, o Nazareno, pregado na Cruz... Mas quando o dia acaba e chega o entardecer os seres humanos se ajoelham para rezar diante dos ídolos, erigidos sobre cada topo da colina, cada prado e cada campo de trigo.
Hoje, as almas cristãs viajam com as asas da memória e voam até Jerusalém. Lá ficarão de pé, junto às multidões, batendo no peito e olhando para Ele, coroado com uma grinalda de espinhos, de braços abertos diante do céu e olhando por detrás do véu da morte para dentro das profundezas da vida...
Mas, quando a cortina da noite cair sobre o palco do dia e este breve drama terminar, os cristãos retornarão em grupos e deitarão à sombra do esquecimento, entre as cobertas da ignorância e da preguiça.
Neste mesmo dia, a cada ano, os filósofos deixam suas cavernas escuras, e os pensadores suas celas frias, e os poetas suas pérgulas imaginárias, e todos ficam de pé, reverentes, sobre a montanha silenciosa, ouvindo a voz de um jovem que fala de seus tormentos e de seus matadores: “Ó Pai, perdoa-os, porque não sabem o que fazem!”.
Mas, quando o silêncio da escuridão sufoca as vozes do dia, os filósofos e os pensadores, e os poetas regressam às suas tocas estreitas e envolvem suas almas com páginas insensatas de pergaminho.
As mulheres que se ocupam com o esplendor da vida se precipitarão hoje para fora de suas almofadas para ver a mulher pesarosa de pé diante da Cruz, como um broto de árvore diante da tempestade furiosa. E quando se aproximarem dela ouvirão um fundo lamento e um doloroso pesar.
Os rapazes e as moças que apostam corrida com a torrente da civilização moderna se deterão hoje por um instante e olharão para trás, para ver a jovem Madalena enxugando com suas lágrimas as manchas de sangue dos pés de um santo homem suspenso entre o céu e a terra. E quando seus olhos rasos se cansarem da cena eles partirão e logo voltarão a sorrir.
Neste dia, a cada ano, a humanidade acorda com o despertar da primavera e se põe de pé a chorar diante do Nazareno sofredor. Em seguida, ela fecha os olhos e se entrega a um sono profundo. Mas a primavera permanecerá desperta, sorrindo e avançando até desaguar no verão, vestido com trajes de ouro perfumado. A humanidade é uma carpideira que se compraz em prantear as lembranças e os heróis das épocas passadas... Se possuísse entendimento, haveria júbilo nisso, e não pranto. A humanidade é como uma criança de pé a sorrir ao lado de um animal ferido. Ela ri diante da corrente cada vez mais forte que carrega para o esquecimento os ramos secos das árvores e arrasta, com determinação, todas as coisas deixadas frouxas.
A humanidade olha para Jesus Nazareno como para um miserável que sofreu pobreza e humilhação com todos os fracos. E ela tem pena d’Ele, pois acredita que Jesus foi crucificado na dor... E tudo o que lhe oferece é choro, gemidos e lamentação. Por séculos a humanidade tem adorado a fraqueza na pessoa do salvador.
O Nazareno não era fraco! Ele era forte e é forte! Mas as pessoas se recusam a ouvir o verdadeiro significado da força. Jesus nunca viveu uma vida de medo, nem morreu sofrendo ou queixando-se... Viveu como um líder, foi crucificado como um cruzado morreu com um heroísmo que assustou seus assassinos e torturadores.
Jesus não foi um pássaro de asas quebradas. Foi uma tempestade furiosa que quebrou todas as asas deformadas. Não temeu seus perseguidores nem seus inimigos. Não sofreu diante de seus assassinos. Foi livre, bravo e ousado. Desafiou todos os déspotas e opressores. Viu as pústulas contagiosas e amputou-as... Fez calar o mal, esmagou a falsidade, despedaçou a perfídia.
Jesus Não veio do centro do círculo de luz para destruir os lares e construir sobre suas ruínas os conventos e mosteiros. Não persuadiu o homem forte a se tornar monge ou padre, mas veio difundir sobre esta Terra um espírito novo, com poder para demolir as fundações de qualquer monarquia erguida sobre ossos e crânios humanos... Veio demolir os palácios majestosos, construídos sobre os túmulos dos fracos, e esmagar os ídolos, erigidos sobre os corpos dos pobres. Jesus não foi enviado aqui para ensinar as pessoas a construir igreja e templos magníficos no meio dos frios barracos miseráveis e das choupanas melancólicas... Ele veio para transformar o coração humano num templo, a alma no altar e a mente num sacerdote.
Estas foram as missões de Jesus Nazareno, e estes são os ensinamentos pelos quais ele foi crucificado. E se a humanidade fosse sensata, ela se levantaria hoje e entoaria com força o cântico da conquista e o hino do triunfo. Oh, Jesus crucificado, que contemplas tristemente do alto do Calvário a infeliz procissão das eras, que ouves o clamor das nações escuras e entendes os sonhos da eternidade... Tu és, sobre a Cruz, mais glorioso e honrado que mil reis sobre mil tronos em mil impérios... Tu és, na agonia da morte, mais poderoso do que mil generais em mil guerras... Com teus lamentos, és mais jubiloso do que a primavera com as flores... Com teu sofrimento, és mais bravamente silencioso do que os anjos que choram no paraíso... Diante de teus acoitadores, és mais resoluto do que uma montanha de pedra... Tua grinalda de espinhos é mais brilhante e sublime do que a coroa de Bahram... Os pregos que perfuram tuas mãos são mais belos do que o cetro de Júpiter... As gotas de sangue sobre teus pés são mais resplendentes do que o colar de Ishtar.
Perdoa os fracos que te presenteiam hoje, pois eles não sabem como presentear a si mesmos... Perdoa-os, pois não sabem que tu conquistaste a morte com a morte e concedeste a vida aos mortos... Perdoa-os, pois não sabem que tua força ainda os aguarda... Perdoa-os, pois não sabem que todo dia é teu dia.

criado por Murilo Gitel
10:43:45A amiga sente vontade de me telefonar, porque acredita que estou precisando de alguma coisa.
De fato, eu estou mesmo precisando. Não tenho computador e o meu trabalho depende de tal engenhoca para se tornar aceitável.
A amiga desconhece minha necessidade específica, mas ao ser informada, me convida para usar o pc dela, no apartamento em que ela mora sozinha, solteira que é por opção.
São 19h30 e o meu trabalho vai me exigir algum tempo. Além de não ter computador, também não tenho carro, fudido que sou, logo, ela se compadece e me convida para dormir na residência dela.
Recuso o convite, a princípio, sob o pretexto de não querer incomodá-la e dar algum trabalho, mas acabo aceitando a ajuda, porque um criminoso não deve impor condições e um mendigo não pode ser exigente.
A amiga passa a noite toda conversando comigo, enquanto baixo e trato fotos, respondo a e-mails inúteis e atualizo sites e blogs.
Antes de dormir, a amiga me oferece uma cueca samba canção abandonada pelo ex-marido que ela abandonou por uma razão desconhecida.
Saio do banho e há um belo colchão forrado na sala com um lençol repleto de porquinhos. São 3h26 e nós acabamos de ouvir o cd do Lô Borges. Na minha cabeça, o desconforto que aquela cena no elevador me causou: a amiga e eu conversando de forma descontraída com as compras nas mãos e a vizinha nos olhando com aquela cara de: "hum, ela está com um novo namorado..."
Penso também no atraso da mentalidade humana, mas não são mais horas de pensar nessas coisas, portanto, chega a hora do descanso de mais um dia.
Me lembrei de que tenho insônia. Mas parece que estou dormindo. A amiga chega perto de mim sem saber que estou acordado e me cobre com o singelo lençol repleto de não-menos singelos porquinhos cor-de-rosa. Carinhosa, me faz um cafuné e desliga a luz do abajour.
E eu chego a conclusão de que nem sempre as relações de homens e mulheres precisam acabar em sexo. Ou precisam?

criado por Murilo Gitel
19:44:19
Arte Gráfica: *Zeca de Souza. Alex Jordan assina a coluna semanal intitulada "Eu Mereço", a partir do dia 24 de outubro.
Estudante do quinto semestre do curso de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo, das Faculdades Jorge Amado e estagiário do programa Soterópolis, da TV Educativa da Bahia, Alex Jordan, de 22 anos é uma das criaturas mais engraçadas, inusitadas e exóticas que conheço. Antes que ele desista de contribuir com o BMA, afirmo também que ele é um cara super inteligente, ávido pela busca do conhecimento e, sobretudo, torcedor alucinado do outrora "Tricolor de Aço", o saudoso e querido Bahia (ou seria Baêa???).
Arte Gráfica: Zeca de Souza
Eis que este militante fervoroso das causas do bairro Boca do Rio, em Salvador passa a ser o novo colaborador deste espaço, que completou o primeiro ano de vida em agosto (para desgosto de muita gente), assinando uma coluna engraçada e repleta da falta de sorte corriqueira no cotidiano deste ser já conhecido no setor de Produção da TV Pública por conseguinte do jargão: "Eu Mereço", tantas vezes pronunciado logo após mais uma desilusão que presencia neste mundo assolado pelo capitalismo selvagem.
Portanto, o Blog do Murilo Alves passa a ficar mais rico a partir dos próximos dias! Obrigado, Alex!
*Zeca de Souza é publicitário e editor de texto do programa Soterópolis, exibido agora as quintas-feiras, às 21h40, nos sábados, às 11h e aos domingos, às 18h, na TVE-BA,.

criado por Murilo Gitel
19:43:03