Blog do Murilo Gitel

Uma mistura de literatura e jornalismo. Editor responsável: Murilo Gitel - estudante de Comunicação Social com Jornalismo nas Faculdades Jorge Amado, estagiário na TVE-BA e na Assessoria de Imprensa do Galícia Esporte Clube.

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Terra Blog

11.07.08

O amor nada mais é do que o interesse bem-vestido

Por Murilo Gitel

Janaína foi o amor mais intenso e menos vivenciado da vida de Guilherme. Conheceram-se da forma mais inusitada, num ponto de ônibus de Porto Alegre, em um mês de julho gelado, como não deveria deixar de ser. Ela contava 31 anos de idade, ele 25. Ela lia Nietzsche, Lia Luft e aquele cara que tem mania de conectar todas as coisas, o tal do Capra. Ele preferia as Aventuras de Tin-Tin, as Mil e Umas Noites e as aventuras do Asterix. Ela torcia para o Internacional. Ele gremista doente. Ela Imperadores do Samba, ele Bambas da Orgia.
No entanto, se Machado de Assis já ressuscitara Shakeaspere ao lembrar que “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”, digo eu, modestamente, que algo em comum parecia querer unir aqueles seres tão díspares. Nesse quesito, a Linha T3 da Carris seria pioneira.
-Boa noite! Faz muito tempo que tu estás aqui no ponto? Perguntou Guilherme.
-Boa noite! Não muito. Acho que há uns 10 minutos.
-Barbaridade! Vou perder o jogo... Constatou o gremista desolado.
-Se é o do Grêmio, tá 1x0 Botafogo. Respondeu a bem-informada colorada, com um sorriso no rosto.
Guilherme não teria notícia melhor do que aquela durante aquele dia difícil, mas gostou do sorriso de Janaína. Esperto, procurou prolongar a conversa.
-Bah! Sério? Como é que tu sabes?
-Eu estava ouvindo no intervalo da faculdade, ainda agora.
-Ah, sim. Então, além de muito simpática, tu és gremistona? São duas qualidades...
-Agradeço o elogio quanto à simpatia, mas do segundo mal eu não sofro. Eu sou colorada.
-Não acredito. Colorada? Uma moça tão bonita... Mas, se o teu time não joga hoje, porque estavas ouvindo o jogo do Grêmio?
-Porque quando o Inter não joga, faço questão de secar o rival.
-Era só o que me faltava! Exclamou Guilherme, perplexo. Além de colorada, secadora oficial do Grêmio...
Ambos sorriram, depois da bem-humorada discussão futebolística. Cerca de 10 minutos depois, surgira o T3, lotado como sempre, apesar do novo sistema de bilhetagem eletrônica.
Guilherme e Janaína moravam, coincidentemente, na região da Avenida Oscar Pereira e foram conversando bastante, sobre variados assuntos, naquele fatídico dia em que se conheceram a exemplo de todos os outros dias seguintes.
Observador, embora ainda bastante inexperiente, o rapaz foi percebendo uma série de virtudes louváveis em Janaína, uma raridade de pessoa em tempos de capitalismo excessivo e de tanta futilidade. Ao mesmo tempo, a humildade de Guilherme, somada a uma notória sede pelo conhecimento demonstrada pelo garoto chamava muito a atenção de Janaína, cada vez mais apaixonada por ele. Para completar, ambos eram bonitos e faziam um casal perfeito, a exemplo daqueles que vemos nos seriados norte-americanos.
Como estudavam na mesma faculdade e primavam pela discrição, ambos iniciaram o romance. Tudo sem alardes, com pouca pompa ou divulgação nos Orkut’s da vida. Para a cena do primeiro beijo, parecia que um cenário havia sido criado. Foi na altura da Glória, nas proximidades da Casa do Artista Rio-Grandense, ao lado daquele orelhão verde que até hoje fica na esquina com a farmácia. Janaína morava naquela rua. Guilherme dois pontos depois, mas pedira para descer ali, ao lado dela, naquela noite. Eram quase 21h. Com um medo terrível de tomar um fora, ele chegou perto de Janaína e perguntou: - posso? Ao que ela respondeu, depois de falar numa fração de segundo com a própria consciência: - Era tudo o que eu queria ouvir... – Você pode!
E eles se beijaram demoradamente, longamente, loucamente.
O tempo passou e a paixão de Janaína e Guilherme foi ficando mais intensa. Depois de seis meses, Guilherme era um misto de felicidade e tristeza simultâneas, ao receber uma notícia de um primo que morava em Fortaleza. Era uma boa proposta de emprego na capital do Ceará, mas tudo deveria ser ajeitado em menos de uma semana, no mínimo de tempo possível.
Com o coração na mão, porém, decidido, Guilherme aceitou as passagens enviadas pelo primo e anunciou a notícia a Janaína, que, num primeiro momento, fez de tudo para não demonstrar estar arrasada, esboçando um sorriso sem sal e algumas frases previsíveis, do tipo: -Guilherme, não se preocupe, se será melhor para você, não pense muito, vá!
E ele foi sem jamais tirar do peito aquele grande amor.
E ela ficou, abatida, pelo fato de mais uma vez ter ficado sem aquele que julgava ser o grande companheiro de sua vida. Mas não esboçou nenhum esforço para largar tudo e ir embora com ele, o que realmente não é tão fácil assim.
Em pouco tempo, Guilherme teve grandes conquistas tanto na área profissional quanto na estudantil.
Já Janaína, permaneceu estagnada, agora sem mais conseguir esconder uma profunda mágoa com o ex-amado, que surgiu aparentemente do nada em sua vida, provocou um verdadeiro vendaval e em pouco tempo depois sumiu do mapa, para nunca mais voltar.
Em oito anos de distância, depois de uma série de telefonemas, cartas e e-mails trocados, Janaína, aconselhada por amigas, estava realmente decidida a dar uma nova guinada em sua vida, esquecendo o amor platônico por Guilherme e procurando uma nova metade com o objetivo de ser feliz.
Foi quando recebera um e-mail de Guilherme, que anunciava retornar pela primeira vez ao Rio Grande do Sul, depois da súbita partida. Ele queria revê-la, nem que fosse a última vez. Mas, Janaína estava indubitavelmente decidida a não alimentar mais qualquer sentimento pelo rapaz, evitando qualquer tipo de contato. Ela respondeu a mensagem eletrônica com as seguintes palavras:
-Guilherme, oito anos não são oito dias. Não me mande mais nem os links dos seus textos, porque eu não os leio e, para ser sincera, não gosto deles. Por favor, não me procure mais.
Guilherme ficou desolado. Leu a resposta do e-mail e viajou para Porto Alegre. Ficou mais de 20 dias em sua terra de natal, revivendo na memória os mesmos lugares em que passeara com Janaína durante todo aquele tempo em que se amaram muito. Não viu Janaína em nenhum desses dias, embora tivesse a procurado no bairro em que ela ainda mora, ao menos pela vidraça dos ônibus da Carris.
No aeroporto, ao retornar para o Nordeste, ele chegou à conclusão de que até mesmo o amor – o mais nobre e intenso dos sentimentos é motivado por alguma forma de interesse, uma espécie de disfarce que as pessoas perseguem como se fosse um horizonte distante, mas possível e vital para aquilo que algumas pessoas chamam de “felicidade”.
E completou: ela esteve durante todos esses anos mais preocupada com a solidão pessoal dela, do que com o meu desenvolvimento e bem-estar. Ou seja, sempre se preocupou mais com ela do que comigo, em vez de pensar mais em nós dois, em nossa relação, portanto, não irei mais me olhar no espelho como um criminoso, frio e desumano.
Oito dias depois, ele escrevera o roteiro de sua primeira peça, intitulada: “O Amor Nada Mais é do que o Interesse Bem-Vestido”.



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